Ilha

Dezembro 19, 2009

Cada homem é uma ilha
alguns apenas tem gravetos para fazer
ambíguos sinais de fumaça.

Outros, nem isso.

Metamarginália

Dezembro 16, 2009

Se procuras aqui o contraste barroco
Entre o santo de mármore e o de pau oco
Pois saiba que em mim não está o que tu queres
Está o ódio dos homens e o das mulheres

Neste inferno na terra traída pelo mal
Não sou nenhuma ajuda ou ser celestial
Sou sim um barqueiro de duas moedas
E nesta travessia estão suas pedras

Mas o alento onde está em minha canção?
Talvez o encontre no fim do caminho
Mas não prometo ao teu coração

Só de rimas tolas vive este meu jargão
Sem flores ou frutos ou doce lencinho
E por fim fecho a porta e só te digo: não.

Enredo

Fevereiro 24, 2009

Odeio vocês

São melhores
Maiores
Mais fortes que eu

São mais belos
Mais nobres
Mais dignos que eu

Escrevem melhor
Compõem melhor
Falam melhor que eu

São mais simpáticos
Mais sociais
Mais alegres que eu

São todos mais magros
Mais bonitos
Mais vivos que eu

São todos mais éticos
Mais morais
Mais certos que eu

São todos lindos, loiros e arianos
São deuses, todos e cada

Odeio-os
Odeio cada um de vocês com seus sinceros sorrisos e pensamentos
Odeio suas boas intenções, suas mãos amigas, sua compreensão

Odeio sua alegria e disposição perante a vida

Não!
Não quero sua comiseração!
Sua piedade!
Seu apoio!
Seu capital!

Quero afogar-me em minha própria merda
Quero viver recluso em minha própria auto-piedade
Quero existir na minha cela particular, remoendo cada pecado

Vão embora todos e deixem-me ser…
Hoje é domingo de carnaval.

Manifesto da Tolice

Novembro 9, 2008

De agora em diante, exaltemos a tolice!

Não mais o futuro
A loucura
Os sonhos
A justiça social
Apenas a simples tolice

Não mais versos intricados
com figuras complexamente construídas
Não mais nobres denúncias
e ensandecidas ilusões
Não mais o belo, apenas
o tolo!

De agora em diante,
todos os versos serão pueris
A utilidade será a desutilização
Sem mais objetivos
Sem mais lingüistas
Sem mais monografias

Verso e prosa serão tolos
Tolos como são os que escrevem
Sem mais poesia máscara

A tolice poética é transparente
Transparente e justa

Sem mais estéticas estúpidas
Sem mais metáforas, metástases, metanfetaminas
Sem mais daquela nova opinião dinâmica e indecisa
Sem mais opiniões

De agora em diante, a tolice.
Versos tolos e pueris.

Tolice.

Palavras malditas palavras
não basta tirar-me a paz

Tiram-me o dom da verdade

Concretude

Outubro 2, 2008

coblocoblocoblocoblocob

locoblocoblocoblocobloc

oblocoblocoblocoblocobl

ocoblocoblocoblocobloco

blocoblocoblocoblocoblo

Não há nada tão concreto
quanto o bloco de um escritor

Desabafo II

Outubro 1, 2008

A quem escrevo?

Seria mero egocentrismo convertido em carência por popularidade?
Seria uma ânsia por extravasar o que me corrói?
Seria um desejo infundado de impregnar mentes com minhas intransferíveis individualidades?

Por que escrevo?

Série Numerada 7

Setembro 22, 2008

Olhe você
Olhe
Mire e veja
O que há de belo
O que há de caos
O que há
é
o que é
ocê qui é

Você que é vivo
você que é antigo
você que tem medo

Você que nasceu
Você que amou
Você que morreu

Corre em tuas veias
o sangue negro dos puros
e vives como os outros
Mas corro a cada dia
mas morro a cada dia
morro meu sangue rubro
Morro minha glória
Morro minha história
morro cada alvorada cinzenta

Desvivo
Desrito
Desmito
desde o mito a morte

Morte o sangue vivo
vive

Vivo

Nós e Eles

Setembro 15, 2008

Para Richard Wright (1943 – 2008)

Nós e eles
Tão distantes
Nós e eles, meu amigo
Tão amantes

Perdido na brisa
Perdido no tempo
Com medo, em um tempo passado

E dia a dia, retornamos a esse manicômio

Viva e brilhe, caro amigo
Pois estamos todos com você
Nós e eles, unidos uma vez mais

Quero sim dizer algo
Antes de partir

Quero dizer exatamente
Tudo o que eu sinto

Adeus para você
Não tivemos o bastante, por uma vida inteira

Rick, essa obra quase repentista nunca será o bastante para representar tudo que você significou para a música. O que quer que haja quando seu último dia se passa, saiba que aqui nessa existência serás eternamente vivo.

Desabafo I

Setembro 11, 2008

Meses
Meses
Meses

O papel olha
Desinteressado
Olha
Olha pro papel
Desinteressado

Tormenta, tormenta
O papel e o relógio
Parceiros

A dupla que debocha
Pomposamente
De minha desgraça
De meu espaço vazio
Onde eu costumava
Falar

A fala
Desapropriada de existência
De forma
De aforismos

A linguagem
Inalcançada
Perdida no meu caminho
No meu tempo
no meu papel
no meu relógio

Tiquetoque