Sol com Sétima

janeiro 20, 2012

Mamãe não era imagem.

Minha mãezinha.

Ré. Lá. Si. Fá sustenido.

Mamãe era um ré com sexta. Não dedilhado, nem arpeggiado; era um acorde executado em uníssono por um piano de cauda. Um acorde doce e tenro; um acorde que lembra a soneca do jardim de infância, o abraço de saudade e o sorriso demorado. Mas um acorde heterodoxo; não era mero acorde maior ou menor; havia aquele si que determinava a tudo e a si mesmo. Não era ordinário. Mamãe nunca foi um acorde qualquer.

Mamãe era bossa e rock’n'roll. Samba’n'brega, Chico ou Caetano. Roberto Carlos. Era uma garota que como eu amava os Beatles, e não os Rolling Stones. Mamãe era mais tropical que Carmen Miranda, mais Tropicália que Gilberto Gil. Mamãe era Brasil e era mundo. Mamãe era som. Mais que tudo, era som.

Mamãe, pra mim, nunca foi palavra, sempre foi som.

Não era o Verbo do princípio. Era Ohm. Era partícula,vibração. Reverberava, tocava. Se deslocava pelo ar. Mamãe era música. Quando não podia falar o que lhe vinha à cabeça, cantava o que dizia o coração.

Eu e mamãe éramos um trítono. Uma diminuta quarta (-feira, quando tinha peixe para tia Lelena). Mas não um trítono impensado e arbitrário; não um horroroso diabolus in musica. Era mais, era melhor. Era aquela blue note cuidadosamente inserida num momento chave; era a dissonância, a tensão. Era a briga inserida no momento preciso da música. Era a tensão da mudança de tema. E eram muitos temas. Mamãe era, sim, progressiva.

Mamãe nunca foi sinfonia. Odes e orquestras, não. Mamãe não era megalomaníaca. Era um banquinho e um violão. Era um aparelho de som num volume baixo. Era a mesma música.

Mamãe me deu um disco uma vez. Era vermelho e tinha um número “1” amarelão na capa. Talvez minha vida fosse outra, não fosse esse presente.

Mamãe me deu um disco uma vez. Tinha vaca na capa. Talvez minha vida fosse outra, não fosse esse presente.

Mamãe era canção, não texto. E a magia da canção é a magia da antigüidade. Mamãe não fica eterna no papel, nem na pedra. Mamãe fica eterna na memória.

O único acorde que mamãe sabia tocar no violão era o sol com sétima.

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