Amor Universal
Junho 28, 2008
Ele era um engenheiro
Ela era uma artista plástica
Eles nunca se conheceram
Western
Junho 28, 2008
Eu me assento bebendo meu scotch e repouso
minha trinta e oito carregada por sobre o balcão quando
um homem troncudo, mal encarado e com uma
pinta falante do tamanho do Alabama vem
até mim e diz ‘garoto, isso aqui não é
lugar para gente como você’
e então eu furo a cabeça dele e mergulho
mais uma vez em Daniels
Enquanto isso, Pessoa travestido
de futurista exalta em ridículo
“deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas”
Oquixote
Junho 25, 2008
Observação: Devido à minha incapacidade em compreender a dialética do HTML e à preguiça de mexer com formatação no péssimo editor de texto do WordPress, os diálogos usam “bolinhas” ao invés do tradicional travessão. Os títulos das duas partes estão em branco. Algumas paragrafações estão toscas. Não confundam com uma ruptura genial. Isso não é um cachimbo.
“Touch me baby, can’t you see?
That I am not afraid…
What was that promise that you made?”1
Jim Morrison
De como o casal se reencontrou após conflitos que marcaram a vida de ambos
Encontravam-se pela primeira vez em dois anos. Puro acaso, num restaurante da vizinhança dela. Ambos sozinhos, resolveram se sentar juntos para não deixar o jantar tão solitário. Serviam-se de uma porção de queijo pachá enquanto degustavam vinho tinto. O ambiente do estabelecimento era caloroso. As mesas eram de madeira trabalhada, enquanto a parede tinha um acabamento em pedra. Era possível se sentir tanto num castelo europeu medieval quanto numa pequena cabana em alguma pousada do interior de Minas Gerais. A luz fraca do lustre suspenso sobre suas cabeças refletia no líquido avermelhado em seus cálices. Mais de uma hora de conversa havia se passado.
-
Mas então, a Ana me disse que você foi promovido. Com o que você está trabalhando agora? – perguntou ela.
-
Eu não fui exatamente promovido. Me mudaram para um setor mais adequado pra minha graduação. Agora que eu formei, eles acham que trabalhar no RH não é o certo pra mim, então me transferiram pro Financeiro.
-
Mas desde quando isso não é promoção? – incitou com um tom de brincadeira.
-
Tecnicamente ainda estou no mesmo degrau na hierarquia. Só estou ganhando mais e fazendo o que eu gosto – uma proposital falsa modéstia era transparente em seu tom de voz.
-
Continua sendo uma promoção pra mim! – riu. – Mas eu sabia que não ia dar certo você trabalhando para aquele cara. Todo dia você reclamava dele.
-
Lógico, ele fez o possível e o impossível para arruinar minha carreira!
-
Eu lembro de quando você chegou na minha casa chorando pedindo carinho por causa de uma proposta sua que ele rasgou na mesa de reunião – debochou, nostalgicamente.
Ela se lembrava sim do fato, mas não fora tão engraçado quanto soava agora. Seu então namorado nunca havia estado tão abalado quanto naquele dia.
Ele havia chegado na casa dela com a face ruborizada e encharcada. Ela jamais esqueceria o quanto se desesperou ao dar a primeira vislumbrada na cena. A expressão do homem transmitia um misto horrorizante de cólera, tristeza, agonia e frustração. “O filho da puta rasgou! Rasgou tudo na frente de todo mundo!”.
Naquela noite, ela se lembrava bem, eles não treparam. Tudo que ele pediu foi poder adormecer em seu colo. “Claro meu bebê” ela havia respondido. Não com sátira, mas com uma doçura maternal na voz. Aquilo tudo foi antes das brigas. Antes de serem banidos do Paraíso.
-
…sua tese?
Ela havia sido completamente levada por seus devaneios.
-
Desculpa?
-
Eu estava perguntando se afinal terminou sua tese.
-
Ah, sim. Terminei, finalmente. Com a corda no pescoço, mas consegui acabar. Inclusive, a Universidade está pensando em publicar por uma grande editora.
-
Verdade?
-
Sim, sim. A orientadora disse que é uma proposta única de estudos, e que pode servir de base pra muitos projetos.
Quando os caminhos se separaram, dois anos antes, ela estava numa crise de criatividade para sua própria pesquisa.
“O Ideário Quixotesco na Literatura Brasileira do Século XX” parecia um tema extremamente entediante para ele na época que ela lhe contou a proposta. Contudo, ele obviamente a apoiou em cada passo. Curiosamente, conforme os estudos se passavam, ele se interessou tanto quanto ela pelo assunto.
Enquanto ela fala, ele recordava a recorrente cena dela nua em sua casa, no alvorecer de um domingo, lendo para ele suas últimas constatações. Eram olhos de criança que a olhavam, olhos do eterno aluno maravilhado pelo mestre. Naquela época, a cada despertar o corpo dela o encantava. Além do carnal, ele sentia uma divindade emanando daquela figura que ele passara a idolatrar. As horas e horas ouvindo sobre arquétipos de personalidade surgidos com Cervantes e reutilizados por Machado de Assis, Rosa, Suassuna e outras dezenas de nomes que ele nunca memorizou o encantavam, cada frase enunciada por aquela doce voz, o balanço perfeito entre a sensualidade e o carinho materno.
Lógico que isso foi antes da crise. Quando a estrada se bifurcou, ela estava presa. Não sabia até que ponto as “Dulcinéias” eram realmente pertinentes ou não. Era uma questão estúpida na opinião dele, mas para ela, era um ponto central. Ele se lembrava do dia que comentou que “Dulcinéia tem a mesma importância que uma boneca inflável”. Isso fora duas semanas antes de se separarem.
-
… Marrocos.
-
Oi?
Agora era a vez dele ter seu devaneio.
-
Eu comentei que meu pai está agora trabalhando em Marrocos.
Ele entendeu a coincidência. Marrocos era mais uma piada interna deles. Ela sempre dizia
que fugiria com um rico empresário e iria morar em Marrocos.
-
Quem diria, né? – riu ele gostosamente.
-
Eu lembro que da última vez que eu falei em Marrocos você me jogou uma cópia do “Dicionário dos Símbolos” em capa dura.
-
Foi?
-
Foi sim, eu me lembro bem. Sorte a sua que a “Maria da Penha” não havia sido aprovada na época.
Ambos riram, como se ignorassem o fato de que aquela fora a última grande briga. Como se ignorassem o fato de que após aquele dia eles nunca mais se viram.
-
Falando nisso, eu comprei um livro só sobre análise de símbolos na literatura. – retomou ele.
-
Ah é? De quem que é?
-
Hum, não lembro… é de um estudioso literário estadunidense eu acho…
-
Não é que você acabou se interessando pelas letras, afinal?
-
Eu tinha alguém pra me levantar interesse.
Dessa vez cruzaram olhares. Talvez tenha sido o nanosegundo mais desconfortável da vida de ambos.
-
Você vai voltar para casa como?
-
A pé, como sempre. – ela disse.
-
Nessa chuva? Nada disso. Você vai comigo. A gente passa lá em casa e eu te empresto o livro.
Ele sabia o quanto essa proposta parecia ridiculamente cinematográfica. Ele sabia que isso era o clichê hollywoodiano para ‘vamos fazer sexo’. Mas não era a intenção dele. Naquele momento, ele estava de fato interessado em simbologia. Naquele momento, estava diante de sua melhor amiga.
E curiosamente, ela estava diante de seu melhor amigo.
-
Tudo bem, mas eu não posso demorar. Tenho que preparar aula pra amanhã.
-
Sem problemas – ele respondeu num tom amigável. – Posso pedir a conta?
A viagem para casa ocorreu sem maiores problemas. Quais haveriam, afinal? Finalmente os antigos rancores poderiam ser abandonados. Os eternos ciúmes que ela tinha da prima dele. O eterno estresse do trabalho que ele descontava nela. As ocasionais implicâncias que ela tinha com a passividade dele. As ocasionais traições dele, uma das quais
(o quarto era vermelho e o ar infantil daquela donzela abandonara-os desde que deixaram a boate ao que parecia anos qual o problema? ela não descobriria isso jamais ela não saiu com ele aquele dia e que mal havia em ir na boate ‘eu também trabalho no RH, mas eu gosto tanto’ ajuda profissional, afinal, agora no quarto vermelho, pena que ela tinha companhia de quarto, pena que essa companhia tinha uma amiga que era ela e nesse momento ela e ela e ela e ele estavam no mesmo quarto naquele momento e se viram e congelaram e nada fizeram e tudo fizeram e.)
não foi tão secreta quanto ele imaginou.
E por fim, em casa.
-
Pode ficar à vontade, vou pegar o livro lá no escritório.
A cena não poderia ser mais clichê. A surreal daquele momento o atingiu em cheio, enquanto ela própria não entendia o que fazia. Como que por impulso, lá estava ela, nua na sala. Sem propósito, despira-se e entregara-se. Ele se aproximou.
*********************
De quando o casal novamente procura o amor e eventualmente o encontra
Os momentos seguintes são cruciais. Peço que o leitor enxergue. Ele está diante dela, nua novamente, após anos. Ouça, ouça as respirações densas. A sala está quente e um odor característico a preenche. Meu digníssimo interlocutor consegue senti-lo?
O apartamento não é grande. A sala se resume ao sofá, uma mesa de centro, uma cômoda com um delicado vaso de rosas e um pôster de Dali na parede. Uma de suas portas leva à cozinha, que por sua vez oferece apenas um pequeno espaço, o bastante para preparar e desfrutar refeições de um homem solteiro que mora por conta próprio. Leitor, sinta como esta cozinha está infestada de memórias dela fazendo ovos mexidos para ele nas manhãs de domingo. Aos olhos do quixote, um banquete.
Um pequeno corredor leva à dois quartos e um banheiro. Um daqueles foi convertido em um escritório de proporções modestas. O lugar na prateleira antes ocupado pelo livro de simbolismos destaca-se na grande estante. Um velho computador com uma impressora que há muito não funciona implora por um pano umedecido. O quarto no lado oposto está curiosamente arrumado. É dia da faxineira vir, entenda bem.
Mas de volta à sala, ouça agora os passos. Ele se aproxima, seu tênis fazendo um suave ruído por sobre o carpete. O livro agora repousa na mesa de centro. Talvez pareça faltar uma tela em branco na cena, aonde ele seria o artista preparando-se para pintar o nu artístico de sua musa estirada no sofá. O rosa de seus mamilos destaca-se ante ao azul do sofá e conversa com o também rosa das rosas. Veja leitor, o rosa. A rosa. “Rose is a rose is a rose is a rose”2. Mas lógico que isso não passa pela cabeça dele. O que passava em sua mente ficará eternamente armazenada lá, e em nenhum outro lugar. Ele estica as mãos.
Veja bem, bem leitor, e ouça, ouça quando ela diz não. Quando ela se assusta consigo mesma, diz que não, diz que não. Sua expressão, antes provocativa e quase selvagem, agora mudou. A face de um animal acuado é o que transparece. Olhe, e mire muito bem, digno leitor, o medo que repentinamente se apossa dela. Veja como ela cobre os seis e a púbis com as mãos, sentindo-se mais que nunca uma pecadora. Ouça sua voz. Diz que não, diz que não. Diz que o toque os amaldiçoaria. O toque. Ouça, a doçura e o desespero de sua voz, e será a última voz que ouvirão, eu prometo.
-
Se você me tocar, tudo vai voltar. Você sabe que vai. Não adianta dar murro em ponta de faca.
Agora veja. Ele recua. Saberemos logo o que passa em sua mente. Duas possibilidades, duas verdades, duas realidades confrontam-se. Mas é óbvio que ela não nota. Em seu recuo, ela relaxa, e somente isso. Se encontra agora em um estado instintivo, com respostas selvagens para cada estímulo. Olhe de novo para ele, enquanto aproxima a mão do vaso na pequena cômoda
(e o que eu faço ele pergunta e ele pega o vaso da cômoda e em doçura os estilhaços agora jazem no chão junto com com o vermelho o vermelho vivo o vermelho morte que dora banha o carpete e ele vê o que fez e sabe que ela gritou e ele ouve o que ela gritou e ele ignora e se aproxima de seu corpo e viola o que agora não pode mais dizer não e ele não ouve a alma que diz não e ao fim o vermelho se tinge ao branco e ele sabe o que fez e sabe que não tem como voltar e sabe e não)
e tira uma rosa. Uma rosa rosa. O rosa dos lábios, superiores, inferiores, internos e externos. O rosa dos mamilos da rosa rosa. O rosa do rosa do rosa.
E olhe bem novamente. Ele se aproxima dela, e o rosa das tão delicadas pétalas tocam o rosa dos tão delicados lábios. E os lábios agora se molham enquanto a eletricidade percorre o corpo dela. Cabe refletir sobre quais pensamentos passam em sua mente, mas não há tempo. Provavelmente, a surpresa e o prazer sequer permitem que ela reflita sobre qualquer coisa. Ela sente primeiro as pétalas acariciando seus lábios, pouco abaixo dos pelos. Depois sente os sabores, da rosa, dos lábios, sente seu próprio gosto e o gosto da vida.
A rosa percorre o corpo de lábio a lábio, tocando os preciosos botões. Uma delicada pétala se desgarra de suas irmãs e jaz abandonada num vale, próxima ao delicado umbigo. Olhe bem leitor, e veja a rigidez de seus mamilos. Mas não veja com a ganância do pervertido. Veja com o coração de um poeta. Enxergue não a realização dos desejos da carne, mas a concretização do amor. Ouça.
Ela nada fala. Considera em sua mente se vale a pena declarar algo. Pedir para parar, pedir por mais, perguntar se está está louco, deus!, perguntar se vai chover, qualquer coisa!, mas não. Não vai falar, não fala. Delicados gemidos são audíveis e nada mais. Um suspiro. A rosa viaja, viaja pelo belo corpo e nada mais importa. A rosa a viola docemente e ela a aceita com toda sua pompa.
E veja agora o rosto dela. Acompanhe a inacreditável cena que se desenrola. O gemido se converte num grito, sem palavras. Talvez a libertação, a redenção. Ela se contorce num último gesto
(e o que estou e fazendo e ah não pense ah não penso mas penso e amanhã onde estarei e quixote e dulcinéia não não para por favor só mais um pouco por favor eu não acredito depois de tudo tenho que ir embora tenho que ir depois de tudo que foi tenho que ir mas não não para eu imploro e esse segundo dura uma vida mas vai vai vai só mais um pouco deixa essa merda de flor aí por favor)
ao atingir o ápice. Ouçam um último grito em seu gozo. Ela joga seu corpo para trás, cansada demais para ousar refletir no que fez. Quanto à ele, sente-se satisfeito. Lógico que ele quer que ela abaixe suas calças e acaricie seu membro, talvez até beije-o. Mas ele sabe que isso não vai acontecer, e ama. Nesse momento não é na carne que pensa, é na alma. Na ação da alma. Na animosidade.
E lógicamente, eles dormem. Ela no sofá, ele no chão.
E ao acordar e olhar para o lado, o que sobrará dela será uma rosa amassada naquela raríssima edição ilustrada de “Dom Quixote”.
1Toque-me, baby, você não consegue ver? Que eu não estou com medo. Qual foi aquela promessa que você fez?
2“Uma rosa é uma rosa é uma rosa” – Gertrude Stein (1874 – 1946), escritora estadunidense
(A)testemunho de um Crime
Junho 25, 2008
Eu não estava
Como sempre, eu não estava
Eternamente reduzido à síntese
a relatos
Relatos rotos
(o silêncio impera por um momento)
[Fúria e agressão]
Sempre chego cinco minutos depois
(te esperam para descer, leve meu recado)
Ou vou-me cinco minutos antes
De qualquer forma, o que (des)importa
é que ao chegar só me restam
os corpos, os pêsames
e os versos.
Ó, tolice!
Pausa de semibreve
Junho 18, 2008
Com meu silêncio, componho o dito
Com minha palavra, componho o não-dito
Pelo um ou pelo outro, eu pego minha mochila
e atravesso a rua.
In Nothing we Trust
Junho 17, 2008
Our bodies
Have long lived
In this bitter world
Soon enough
We have learnt
We can’t trust
[Ponte]
All the mistakes
We must pay
All by ourselves
We can’t wait
[Refrão]
Why can’t we trust
Each other
Once in a while?
My love
You’ve heard
What I said
Before
Now why
Won’t you talk
To me?
[Ponte]
[Refrão]
Our bodies
Have long lived
In this bitter world
Soon enough
We have learnt
We can’t trust
You’ve heard
What I said
Before
Now why
Won’t you talk
To me?
Adentrando o Bosque do Tempo
Junho 12, 2008
Nota: Conto baseado na canção “Entering the Woods of Time“, por Labrador.
E naquela terra havia a luz. Um Sol jovem resplandescia seu louvor por sobre as verdes planícies. Os rios corriam com um alegre gorgolejar, que encheria de esperança o coração mais duro. A luz abençoava a tudo. Cada onda era delicadamente irradiada sobre cada superfície, refletindo as mais belas cores do espectro. Cores infravermelhas e ultravioletas, cores fortes e fracas, quentes e frias, cores. Cores e luz que expandiam seu domínio para até onde estendia-se a vista. E a floresta.
A floresta era eterna, era bela. O verde de suas folhas era imortal. O orvalho de sua grama não era frio, era refrescante. A brisa agitava delicadamente cada galho de cada árvore, que se balançavam em agradecimento. A vida explodia naquele bosque.
A luz abençoava a tudo. A tudo menos ao castelo.
Erguendo-se em imponência em meio ao bucólico panorama, um castelo negro. Cada tijolo era delicadamente trabalhado no mais puro ébano, absorvendo egoísticamente toda a luz para si. Um castelo com fome, que nada refletia e tudo comia. Suas torres eram altas mas não possuíam estandartes. E dentro dos negros portões metálicos, apenas uma alma vivia.
Centenas de quartos espalhavam-se por seu interior, todos vazios. Mas o portão dava para um grande salão. Não haviam armaduras decorando os cantos, nem vitrais glorificando as batalhas. Aquele castelo jamais vira batalhas.
E no fim do salão, um majestoso trono. Talvez tenha sido de um vermelho vivo (ou talvez não), mas agora era de um rubro desbotado, um vinho empoeirado. Ainda assim, sua imagem era majestosa. Entretanto, a figura naquele assento não transmitia majestade. Nenhuma coroa era vista sobre sua fronte. Dentro das escuras roupas (que um dia, talvez, tenham possuído nobreza), o homem definhava. Sobre sua cabeça, longos cabelos grisalhos, que sugeriam um antigo louro. Seus olhos não mais eram azuis, mas de um cinza cansado. Cada pedaço de seu tecido epitelial sugeria velhice, com rugas por toda a sua face. Sua cabeça, sempre abaixada, pendia de um lado para o outro. Sua respiração era o único som que preenchia o castelo.
O velho esteve lá por toda a eternidade. Sempre será um mistério as razões que o levaram a levantar a cabeça naquele momento. Sua visão deslumbrou uma pequena fração da luz externa, que queimou seus cansados olhos. Mas aquela luz tão nova e tão bela acendeu sua alma. O fez ter desejos que jamais tivera. Não haviam pensamentos em sua mente; tudo que se sucedeu foi guiado pela luz e nada mais.
O corpo cansado e enrijecido se levantou vagarosamente do imponente trono. Cada músculo que se estendia era uma pancada de dor para a solitária alma. Mas isso não era de importância. Ele agora se alimentaria de luz. E no ritmo da dança das flores, seus movimentos foram ganhando relevância. Em minutos (ou quem sabe anos?) a figura estava em pé. Não teria mais de um metro e sessenta, altura decorrente de sua notável corcunda. E a luz.
Agora um gosto novo preenchia sua boca. Mal sabia ele, mas aquele gosto significava vida. Pura energia. Adiantou-se para além da plataforma de seu trono. Passo a passo deixou o Salão. Lentamente ia adquirindo vigor, quase que imperceptivelmente. Pensamentos não habitavam sua mente, se é que já habitaram. Entretanto, ao avistar o portão no outro lado dos salões de pedra, uma certeza ele teve: aquilo era o que aprisionava sua mente.
Assim foi avançando, um bailarino contemporâneo em seu melancólico solo. Cada toque que seu pé oferecia ao chão lhe trazia mais daquele sabor intoxicante. Eventualmente, chegou próximo o bastante para tocar o portão. A sensação que se apoderou dele agiu por conta própria, empurrando a peça de ferro.
E no outro lado, o verde cegante.
A eterna floresta estendia-se para muito além da visão embaçada do homem. O vento soprava delicadamente, levando as folhas a uma dança suave a agradável. Um vigor novo se apoderara dele, que agora avançava a passos consideravelmente rápidos.
Ao atingir a primeira árvore, não hesitou em tocá-la. Lágrimas brotaram de seus olhos. E por onde passava, parte da pele se embelezava. Uma pequena mecha de cabelos loiros caiu sobre sua face.
Onde ele esteve por todos esses anos? Quantos foram todos esses anos? Nada ele sabia, mas o que um dia se for a, agora voltara. Adentrando mais e mais o bosque, seus olhos recobravam a sagacidade de outrora.
Numa clareira, o homem ouviu um clamor de águas. Ele jamais ouvira aquele barulho antes, e agora corria como um garoto em direção àquela fúria.
Chegando às cachoeiras, a luz inundou sua vida por fim. Era pleno, era uno, era eterno. Daquela fonte, sabia ele, brotava a vida. A intocável e proibida vida, para que tocá-la?
Quanto tempo ficou o homem junto aos pássaros naquela clareira? Podem ter sido milênios, ou segundos. O tempo não importa naquele bosca. Nunca importará. Eventualmente, como deveria de ser, aquele rio caudoloso tentou o garoto. Tinha agora o vigor dos moços e a inocência. Sabia que não podia, mas que mal havia?
Sorrindo para os pássaros e para o bosque, pulou. Ah, a água gelada e saborosa. Uma sensação que, essa sim, durou segundos. Segundos antes de se sentir morto.
E de voltar.
Mas então
Junho 12, 2008
Acorde
Na morte
Na vida
Da sorte
Do interno eterno vazio infinito
Dos espaços esparsos
Passados alados
Acorde sozinho
Sem seu caminho
Olhe o vizinho
E a morte
Aqui, como não, encaixa-se o conflito. E agora, a reviravolta. Segundo ato, caros amigos.
Me acorde
Na sorte
Da vida
Do toque
Seu toque
Me sinta me beije me toque me adote
Me acorde
Do vazio do escuro do espaço esparso
Me levante me puxe me ajude
v-a-g-a-r-o-s-a-m-e-n-t-e.
E é claro.
Entering the Woods of Time
Junho 12, 2008
NOTA IMPORTANTE: AUTORIA CONJUNTA DE TAVOS MATA MACHADO, GABRIEL TELLES E MURILO GOMIDE, SOB NOME DE LABRADOR.
Song and Lyrics by Gomide, Mata Machado and Telles
THE CASTLE I
Sitting alone
Where noone goes
Dwelling in darkness
In his oblivion cell
Alone
Youth’s gone
(solo)
Rise from his throne
And walks the halls of stone
Sights the gate
Which locks his mind
Alone
Youth comes
(solo)
On the other side
The blinding green
The wind that blows
And shakes the leaves
THE WOODS
Just Wondering…
Out on the green
Just like a dream
What was gone now came back
White turns to black
Blur turns to clear
The wind blows softly out here
Waterfalls on his way
His skies were gray
But now shine the day
Crystal ships fly
Diamonds in the sky
The ancient joy travels time
THE CASTLE II
Old…
E as luzes brilham para a Liberdade
E os caminhos se abrem na Liberdade
Para Soma
Soma, Garoto, abra sua cabeça
E olhe pra frente, olha para a luz
E logo adiante, observe
A verdade!
Siga adiante, as trilhas estão claras
Em cada ranhura um novo portal
Dê mais um passo e adentro
A irrealidade
E as luzes brilham para a Liberdade
E os caminhos se abrem na Liberdade
Para Soma
Passo-a-Passo, adentrando o túnel
Pasto-a-pasto por sob a grama
E então, prepara
Para ir além
E as luzes brilham para a Liberdade
E os caminhos se abrem na Liberdade
Para Soma
[Passagem lenta]
[Falado]
Cuidadosamente, Soma se rasteja pelo caminho agora aberto. A terra não o suja, as minhocas não o enojam, ele está feliz. Ele sabe para aonde leva o caminho por sob a Liberdade.
E as luzes
Se apagam
Liberdade!
E o caminho
Fecha
Liberdade!
[Solo]
E as luzes brilham para a Liberdade
E os caminhos se abrem na Liberdade
Para Soma
Liberdade Para Soma [Repete até fade out]