Fecham-se as cortinas.
Março 16, 2009
Então,
vou parar. Não sei por quanto tempo, não sei se pra sempre. Fui inocente ao começar estes registros. Tornei tudo público; fui transparente. Não escondi. Foi bom; me vi.
Não sou um escritor maduro. Não sei se jamais o serei. Houveram peças daqui que me fizeram ter orgulho de mim mesmo; contudo, lamento dizer que foram uma minoria. Tenho passado tempos difíceis e me questionado tudo. Tenho refletido e chorado e gritado e minguado e. Não é a hora de soltar meus filhos no mundo. Talvez tenho sido um pai libertário demais – procurarei agora um caminho mais conservador.
Queria agradecer àqueles que me ajudaram até aqui. Foram modestas visitas, a maioria de conhecidos. Dentre os anônimos, agradeço a Poetriz, quem talvez nunca conhecerei mas que já esbarrou por aqui algumas vezes.
Dentre aqueles que adentravam o picadeiro por conhecerem o palhaço, agradeço principalmente ao Gil. Me encorajou, ajudou, opinou e corrigiu. Não ache que seu esforço foi em vão, querido amigo. Talvez eu ainda volte para o bis. Espero.
Agradeço àquela que me amparou quando eu precisei. Amor, você me lê desde minha gênese. Obrigado por não desistir.
E por fim, agradeço à todos aqueles que por aqui já esbarraram.
Fecho agora as cortinas do picadeiro. A música míngua num sutil fade out. Os malabares recolhem suas garrafas e os trapezistas dão o pulo final. Disparam os canhões. Grita o mágico. A luz explode e se vai. As cortinas se tocam.
(mas a criança da primeira fila jura ter visto a lágrima do palhaço. ‘eu volto’.)
Enredo
Fevereiro 24, 2009
Odeio vocês
São melhores
Maiores
Mais fortes que eu
São mais belos
Mais nobres
Mais dignos que eu
Escrevem melhor
Compõem melhor
Falam melhor que eu
São mais simpáticos
Mais sociais
Mais alegres que eu
São todos mais magros
Mais bonitos
Mais vivos que eu
São todos mais éticos
Mais morais
Mais certos que eu
São todos lindos, loiros e arianos
São deuses, todos e cada
Odeio-os
Odeio cada um de vocês com seus sinceros sorrisos e pensamentos
Odeio suas boas intenções, suas mãos amigas, sua compreensão
Odeio sua alegria e disposição perante a vida
Não!
Não quero sua comiseração!
Sua piedade!
Seu apoio!
Seu capital!
Quero afogar-me em minha própria merda
Quero viver recluso em minha própria auto-piedade
Quero existir na minha cela particular, remoendo cada pecado
Vão embora todos e deixem-me ser…
Hoje é domingo de carnaval.
Fragmento Dadá
Janeiro 1, 2009
O conto a seguir é resultado de uma metodologia Dadá de escrita, baseada em colagem e fluxo de consciência. Foi construída em conjunto por Tavos Mata Machado, Arthur “RockerTux” Alkmim, Felipe Cotti e Toflon Coyote. Não esperamos e nem contamos com sua apreciação.
Segunda feira. O sol brilhava… Na praça, as crianças rodavam e gritavam: você vai acabar trabalhando num posto de gasolina. Desesperados, disseram que Jesus morreu afogado na bosta de Satã. Depois disso, ele ressuscitou, Ringo Starr abraçou seu amigo mas logo viu que não era John Lennon e muito menos George Harrison resolveu pegar uma dobradinha, caprichada, com gosto de cocô velho. Insatisfeito, ele enfiou um jarro no cu e na buceta da mãe do OP, que é uma bicha, dias depois, surgiu das trevas John Lennon fazendo sexo com Yoko Ono e Dercy Gonçalves. George Harrison e Ringo Starr quase morreu enquanto comia um bananaphone, que na barriga tocou e exaltou a multidão que se reunia. Com brado, exaltou: essa mina é muito gostosa! Gozei litros! O Coringa, assustado, escorregou no gelo que havia no chão e caiu de cabeça em uma privada do banheiro público daquela rodoviária onde eu estava porque me envolvi numa briga e minha mãe assustou e disse para me mudar com meus tios em Bel-Air.
Manifesto da Tolice
Novembro 9, 2008
De agora em diante, exaltemos a tolice!
Não mais o futuro
A loucura
Os sonhos
A justiça social
Apenas a simples tolice
Não mais versos intricados
com figuras complexamente construídas
Não mais nobres denúncias
e ensandecidas ilusões
Não mais o belo, apenas
o tolo!
De agora em diante,
todos os versos serão pueris
A utilidade será a desutilização
Sem mais objetivos
Sem mais lingüistas
Sem mais monografias
Verso e prosa serão tolos
Tolos como são os que escrevem
Sem mais poesia máscara
A tolice poética é transparente
Transparente e justa
Sem mais estéticas estúpidas
Sem mais metáforas, metástases, metanfetaminas
Sem mais daquela nova opinião dinâmica e indecisa
Sem mais opiniões
De agora em diante, a tolice.
Versos tolos e pueris.
Tolice.
O Garoto que gritava “lobo!”
Outubro 27, 2008
Palavras malditas palavras
não basta tirar-me a paz
Tiram-me o dom da verdade
Concretude
Outubro 2, 2008
coblocoblocoblocoblocob
locoblocoblocoblocobloc
oblocoblocoblocoblocobl
ocoblocoblocoblocobloco
blocoblocoblocoblocoblo
Não há nada tão concreto
quanto o bloco de um escritor
Desabafo II
Outubro 1, 2008
A quem escrevo?
Seria mero egocentrismo convertido em carência por popularidade?
Seria uma ânsia por extravasar o que me corrói?
Seria um desejo infundado de impregnar mentes com minhas intransferíveis individualidades?
Por que escrevo?
Série Numerada 7
Setembro 22, 2008
Olhe você
Olhe
Mire e veja
O que há de belo
O que há de caos
O que há
é
o que é
ocê qui é
Você que é vivo
você que é antigo
você que tem medo
Você que nasceu
Você que amou
Você que morreu
Corre em tuas veias
o sangue negro dos puros
e vives como os outros
Mas corro a cada dia
mas morro a cada dia
morro meu sangue rubro
Morro minha glória
Morro minha história
morro cada alvorada cinzenta
Desvivo
Desrito
Desmito
desde o mito a morte
Morte o sangue vivo
vive
Vivo
Nós e Eles
Setembro 15, 2008
Para Richard Wright (1943 – 2008)
Nós e eles
Tão distantes
Nós e eles, meu amigo
Tão amantes
Perdido na brisa
Perdido no tempo
Com medo, em um tempo passado
E dia a dia, retornamos a esse manicômio
Viva e brilhe, caro amigo
Pois estamos todos com você
Nós e eles, unidos uma vez mais
Quero sim dizer algo
Antes de partir
Quero dizer exatamente
Tudo o que eu sinto
Adeus para você
Não tivemos o bastante, por uma vida inteira
Rick, essa obra quase repentista nunca será o bastante para representar tudo que você significou para a música. O que quer que haja quando seu último dia se passa, saiba que aqui nessa existência serás eternamente vivo.
Desabafo I
Setembro 11, 2008
Meses
Meses
Meses
O papel olha
Desinteressado
Olha
Olha pro papel
Desinteressado
Tormenta, tormenta
O papel e o relógio
Parceiros
A dupla que debocha
Pomposamente
De minha desgraça
De meu espaço vazio
Onde eu costumava
Falar
A fala
Desapropriada de existência
De forma
De aforismos
A linguagem
Inalcançada
Perdida no meu caminho
No meu tempo
no meu papel
no meu relógio
Tiquetoque